Trombone: instrumento transpositor?

Existem muitas controvérsias no mundo da música. Se pensarmos bem, hoje não deveriam mais haver instrumentos transpositores. O que são? Por quê?

Transposição

Transpositor é o instrumento cuja nota musical executada não corresponde à mesma nota no piano (cuja nota anotada é igual à frequência que soa), mas à uma transposição sua. Ou seja, se um instrumento é transposto “em Fá” significa que quando o instrumentista toca uma nota Dó nesse instrumento o som será equivalente ao Fá de um piano ou “fá de efeito”. Em um trompete em Sib (Si bemol), por exemplo, o instrumentista terá que executar um Ré para que a nota que soa seja um Dó. Se o trompetista tocar Dó, o som será de Sib. Por isso esse é um instrumento transpositor – no caso – em Sib. Mas por que isso acontece?

O temperamento (igual)

Antes do temperamento igual, quando um Mib era diferente de um Ré# (em termos de altura, além do nome), os instrumentos precisavam ser construídos para tocar em determinadas tonalidades, porque não conseguiam abranger toda a gama de alturas. Nesse caso, o instrumentista precisava mudar de instrumento no meio da música se aquele em que ele estivesse não pudesse fazer determinada nota necessária. Quando o temperamento aconteceu, no século XVI (grande controvérsia sobre esse ponto, mas trataremos disso em outro momento), essa necessidade de construir instrumentos diferentes foi, aos poucos, desaparecendo (mas muitos continuam sendo construídos). O que se diz, então, é que determinados instrumentos, construídos a partir de uma afinação X, soavam melhor (em termos de timbre) do que outros iguais transpostos, ou seja, construídos a partir de uma afinação Y. Por exemplo, o trompete em Sib soaria melhor que o trompete Dó, em Ré etc. Mas será que isso persiste?

Lutheria

Antigamente a construção dos instrumentos era difícil. Era tudo manual. Por isso, muitos instrumentos eram feitos conforme a possibilidade de materiais e muitos deles não soavam muito bem. Quando um instrumento soava bem ele era mantido naqueles moldes. Hoje, porém, essas limitações acabaram e não haveria necessidade de termos instrumentos transpositores, o que continua apenas pela tradição.

Trombone de vara

Trombone de vara

Mas e o trombone? Bem, normalmente as pessoas dizem que o trombone “é” em Sib, o que não está correto, porque o trombone não é transpositor. Uma nota Dó executada por um trombonista em seu instrumento soará como nota Dó mesmo. A confusão existe porque a primeira posição do trombone, quando ele está com a vara – esse é o nome da parte móvel – totalmente fechada, permite a execução das notas da série harmônica de Sib. Entre elas, o próprio Sib em várias oitavas. Por isso, muitos acabam confundindo e difundindo a ideia de que esse instrumento é transpositor. O máximo que conseguiríamos dizer para sermos justos nos referindo ao trombone como instrumento em Sib seria em relação à sua construção. Nesse caso, a preferência na construção do instrumento é daquele que tem justamente a série harmônica de Sib na primeira posição, a posição com a vara fechada. Seria possível, por exemplo, construir trombones em que a primeira posição fosse Dó, Lá, Fá etc… mas não é o caso.

Portanto, precisamos diferenciar a ideia da transposição e da construção do instrumento. O trombone não é transpositor, mas é construído trombone Sib.

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