O som do cotidiano

     O som desde sempre intriga e encanta quem procura pensar sobre ele. E, embora você não precise ficar filosofando sobre os fenômenos sonoros/ musicais, podendo apenas fruí-los, apreciá-los etc, refletir sobre o som e suas possibilidades é sempre muito interessante.

Talvez a atitude de não pensar sobre o som – que de errado nada tem – tenha a ver com nosso comportamento padrão de não dar atenção às coisas tão próximas.

Características sonoras

     Ao contrário da visualidade, o sonoro invade os espaços, está presente em cada momento da vida dos ouvintes. E isso acontece, entre outras coisas (fenômenos da propagação sonora…), porque o ouvido não tem uma “porta”, algo que possa tapá-lo. Enquanto podemos fechar as pálpebras, os ouvidos permanecem sempre abertos, fazendo com que o som seja algo à que estamos ininterruptamente ligados durante toda a vida. Mas, talvez para compensar isso, acabamos desenvolvendo relativamente bem a capacidade de nem sempre escutá-los.

Não escutar os sons? Como?

Ouvir | Escutar

Cognição sonora

Cognição sonora

     Geralmente fazemos – na acústica musical, na semiótica da música… – distinção entre diversos tipos de audição. A mais simples/ comum diferenciação é aquela entre ouvir e escutar, sendo que “ouvir” é o que fazemos o tempo todo, sem poder controlar, uma vez que nossos ouvidos estão sempre ativos e recebendo estímulos sonoros. Mas “escutar” aponta para ‘prestar atenção’, para o processamento racional, para a percepção. Assim, desenvolvemos essa capacidade de prestar atenção ou não aos estímulos sonoros conforme a necessidade ou vontade. Ou seja: ainda que estejamos ouvindo sempre, conseguimos direcionar nossa atenção para determinados sons ou até mesmo para nenhum dos que chegam à nós.

Mas claro que alguns sons – muitos deles desagradáveis – insistem em burlar nosso sistema de atenção e fazem-nos escutá-los ainda que não seja nossa vontade. Analisaremos um pouco mais disso lá no final.

Paisagens sonoras

     O compositor/ educador Murray Schafer começou a utilizar, há algumas poucas décadas, um conceito muito interessante no que se refere aos sons do cotidiano, aqueles ao nosso redor: “paisagem sonora”. Esse termo em inglês – soundscape – transforma a palavra “paisagem” – landscape -, o que por si só já nos leva à uma interessante indagação: por que há muito tempo notamos e temos até uma palavras para paisagens e há tão pouco tempo é que criamos um termo para os sons que nos rodeiam o tempo todo, que fazem parte de nosso cotidiano, seja no trabalho, em casa, na escola, na mata etc?

     Bem, a resposta fica pra outra hora. Por enquanto pensemos um pouco mais sobre esse conceito de “paisagem sonora”.

A geografia dos sons ao redor

Mapa de eventos sonoros (paisagens sonoras) de Boston, preparado por Michael Southworth

Mapa de eventos sonoros (paisagens sonoras) de Boston, preparado por Michael Southworth

     A ideia de paisagem sonora difundida por Murray Schafer abriu um campo novo de pesquisas e pensamento sobre os sons. Ao começar a perceber mais – escutar – os sons ao redor no cotidiano (ou não), várias observações acabaram surgindo, como por exemplo, as transformações na paisagem sonora da vida cotidiana causadas pelas indústrias, pelas máquinas. Pense, por exemplo, nessa máquina de lavar que pode estar ligada e em plena “sinfonia” agora aí na sua casa. Além disso…

Sons de ontem e de hoje

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     Um dos tipos de estudos que começaram a aparecer não faz muito tempo foi aquele sobre a história das paisagens sonoras, sobre os sons cotidianos do passado e a comparação com os atuais, seja no mesmo local ou em termos gerais. Um exemplo simples: há alguns anos os sons constantes e cotidianos que ouvia em minha casa durante a madrugada se resumiam ao trem, ao portão eletrônico do condomínio e ao barulho de um ou outro motor de carro pouco silencioso; hoje o número de carros e trens aumentou e quase todos os dias escutamos as batidas de uma rave em algum lugar não muito longe. Perceba que isso é um novo ambiente, mas sonoro. E ele muda, se transforme cotidianamente. Nem sempre de maneira agradável…

Vizinhos: intimidade e ruído

     O som é social. Ou seja: partilhamos a sua audição e compartilhamos (depois das redes sociais esse conceito é ainda mais marcante) os que produzimos. Nem sempre, entretanto, os sons que ouvimos nos agradam e nem sempre agradamos aqueles que nos ouvem com os sons que fazemos, seja por querer ou por acaso, por causa de outro motivo. E isso é especialmente notado pelos vizinhos.

     Com nosso vizinhos – de casa, trabalho, restaurante, mercado etc. – dividimos essa ‘intimidade’ acústica. Além de escutarmos os mesmos ruídos da paisagem sonora da região, eles ouvem os nosso e nós ouvimos os deles. E é aí que a coisa fica legal. Ou não!

     A maioria das grandes cidades têm leis de tratam especificamente de poluição sonora e incômodos causados em função do som. O próprio conceito de “ruído” tem um pé – sobretudo na engenharia e na comunicação – no sentido de “atrapalhar”.

     É desse modo que existe uma espécie de “etiqueta”, além das leis, sobre os sons e os níveis de intensidade que podem ser produzidos em ambientes cercados por outras pessoas, além dos momentos em que eles podem ser feitos. Algumas dessas regrinhas são absurdas e outras nem tanto. Nas salas de concerto, por exemplo, tem muitos ‘amantes da boa música’ (o que seria isso?) que adoram ‘olhar torto’ os vizinhos que resolvem aplaudir em momentos que a etiqueta diz que não são para aplaudir ou resolvem conversar ou ter um ataque de risos no meio da sinfonia. Quem nunca?

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